Homilia do Sábado da 2ª Semana da Quaresma | Missa de Despedida de Dom Murilo Herrmann



07 de março de 2026
Planalto, DF - Brasil

“O Senhor é amor, paciência e compaixão”
 
    Amados irmãos, na data de hoje (07 de março) encerramos mais um ciclo de nossas vidas. E, como todo final de ciclo, somos tomados por nossa humanidade, marcada por medos, anseios, ansiedades e preocupações. A mudança nunca é simples, e ela pode ser dolorosa. Contudo, ela faz parte do nosso caminho. É necessário sair de nossa zona de conforto. E, embora sejamos humanos e tenhamos muitos anseios, nós não podemos nos esquecer de quem somos. Antes de tudo, somos católicos e, como católicos, cremos em Cristo, Senhor da esperança. Ainda que o coração experimente tristeza ou incerteza diante do futuro, jamais podemos perder de vista a esperança que nasce da Ressurreição. O Ressuscitado é aquele que preenche os nossos corações e nos recorda que Deus nunca abandona o seu povo. E nossa fé está no Ressuscitado. E é nisso que cremos: em um Deus que não desampara, um Deus que é amor, paciência e compaixão. Um Deus cujo amor é tão grande e tão extraordinário que nunca o compreenderemos em sua totalidade.

    Esse amor é justamente o centro do Evangelho que ouvimos hoje (Lc 15, 1-3.11-32, Sábado da 2ª Semana da Quaresma). Muitos de nós conhecemos esta passagem pelo nome de “
Parábola do Filho Pródigo”. No entanto, talvez todos nós tenhamos uma visão ‘errônea’ desta passagem. Sempre a vemos do ponto de vista do filho; porém, deveríamos vê-la do ponto de vista do pai. Creio que deveríamos chamá-la de “A Parábola do Pai Misericordioso”. No fundo, não é o pecado do filho que ocupa o centro da parábola, mas o amor do pai que nunca desiste de seus filhos. Vejam bem, os dois filhos ferem o coração do pai de maneiras diferentes. O mais novo se afasta, abandona a casa e desperdiça tudo o que recebeu. Ele praticamente mata o pai para poder receber a herança, e creio eu que todos nós já estamos cansados de escutar essa história do filho perdido. E, do outro lado, desta vez um pouco mais negligenciado, vemos o mais velho, que permanece, mas seu coração está endurecido, incapaz de compreender a alegria da misericórdia.

    E, no entanto, diante de ambos os lados, o pai permanece o mesmo. Ele vê os dois pecados como um só, sem distinguir entre pecado grande ou pecado pequeno. Ele tem sede de perdoar. Ele é um pai que espera, que acolhe, que sai ao encontro e que nunca deixa de amar e perdoar. Talvez esta seja uma palavra muito importante para nós hoje.

    A Igreja é chamada a ser justamente essa casa do Pai que está sempre aberta. Uma casa onde ninguém é definitivamente perdido, onde sempre existe a possibilidade de voltar, onde a misericórdia de Deus é maior do que qualquer pecado. E nós, como Igreja, recebemos esta mesma missão: não somente ser perdoados, mas ir ao encontro e estar de braços abertos.

    É claro que o pecado é uma realidade muito presente na vida humana e uma oferta muito chamativa. O pecado se apresenta como uma ‘liberdade’, um desejo de fazer tudo aquilo que nos convém. Contudo, acredito que todos já experimentaram ou sabem que essa falsa sensação de liberdade acaba se tornando uma prisão. Aquilo que parecia libertador se revela destrutivo. Aquilo que prometia felicidade termina em vazio. Mas há um momento muito belo e revelador neste Evangelho: o momento em que o filho cai em si. A desgraça que ele experimenta se torna um caminho de graça. Deus fala ao coração humano através das provações da vida. Quando é destruído pelas nossas próprias desgraças e safadezas, o coração começa a enxergar com mais clareza que ele não é capaz de se autossustentar e procura aquele que o sustenta.

    Paralelamente, também podemos vivenciar, do outro lado da parábola, algo que muitas vezes negligenciamos em nossa vida espiritual: a rigidez de nossos corações quanto ao Amor de Deus. No final da parábola, o filho mais velho, exteriormente, permanece na casa do pai, mas percebemos que o seu coração está distante. Ele não compreende a misericórdia do pai. Ele não consegue participar da alegria do perdão. Ele vive uma vida apenas cumprindo deveres e obrigações e acaba vivendo a relação com Deus como se fosse uma troca de mercadorias. No fundo, ele também se sente como um escravo. E é interessante notar que, de maneiras diferentes, os dois filhos acabam se sentindo escravos. Um tenta fugir dessa suposta escravidão e se perde. O outro permanece em casa, mas com um coração incapaz de experimentar o amor. E aqui temos uma conclusão extraordinária: o pai permanece o mesmo.

    É um pai que espera, um pai que corre ao encontro, um pai que acolhe, um pai que nunca desiste. E como somos felizes por também termos a alegria de ter este pai. Deus nunca desiste de seus filhos. E digo novamente: esta é também a missão da Igreja. A Igreja existe para ser, no mundo, a casa do Pai. Uma casa onde sempre é possível voltar. Uma casa onde a misericórdia é maior do que o pecado. Uma casa onde ninguém é definitivamente perdido. Assim como o Pai nos amou e nos perdoou, também devemos amar e perdoar. Assim como nosso Pai foi ao nosso encontro, hoje somos chamados a ir ao encontro do outro.

    Portanto, temos a certeza de que o amor e a misericórdia são sinais visíveis de um Deus que nos ama. E seria um egoísmo de nossa parte não somente focar em receber essa misericórdia e este amor, mas anunciar essa misericórdia ao mundo.

    Sabemos bem, em nossas realidades pessoais, que o mundo está cheio de filhos perdidos que partiram para terras distantes. Jovens que acreditaram encontrar a felicidade longe de Deus, mas que muitas vezes acabam experimentando o vazio, a solidão e o sofrimento. Jovens que buscam as drogas, o egoísmo, a libertinagem, a pornografia, a independência, a rebeldia, a atenção. E, ao mesmo tempo, também encontramos muitos jovens que permanecem dentro da casa, mas cujo coração ainda não compreendeu a grandeza do amor do Pai. Católicos e cristãos que se dizem seguidores de Cristo, mas que vivem a Igreja não por amor, mas por medo do inferno.

    Desta maneira, cabe a nós relembrarmos da missão da Igreja e sermos agentes missionários deste amor. A Igreja não existe para si mesma. Ela existe para anunciar ao mundo que há um Pai que ama, espera e perdoa. Um Pai que continua de braços abertos e deseja que todos vivam o Evangelho por causa de um grande amor, e não de um fardo.

    Logo, que nós não sejamos apenas ouvintes desta Palavra, mas sejamos testemunhas vivas dela. Testemunhas de que a misericórdia de Deus é maior do que qualquer pecado. Testemunhas de que sempre é possível voltar para a casa do Pai.

    E hoje, cada um de nós é chamado a continuar essa missão. É necessário lembrar que a Igreja e a sua missão não dependem de padre ou bispo algum. A missão da Igreja tem o seu fundamento em Cristo. Por isso, mesmo quando um pastor parte para uma nova etapa de sua vida, a missão continua. A Igreja continua. O anúncio do Evangelho continua. Porque o verdadeiro protagonista da vida da Igreja não somos nós, mas o próprio Cristo. É Ele quem conduz a sua Igreja. É Ele quem sustenta a fé do seu povo. É Ele quem continua chamando novos discípulos para anunciar o Evangelho. Por isso, o que hoje vivemos não deve ser visto como um término, mas como parte do grande caminho da Igreja, que continua a caminhar na história, sempre guiada pelo Senhor.

O papa Francisco, em sua exortação Evangelii Gaudium (ou Alegria do Evangelho), nos lembra que todos os batizados são chamados a ser discípulos missionários. Cada cristão, pelo simples fato de ter encontrado o amor de Deus, torna-se também responsável por anunciá-lo aos outros. Não é uma missão reservada apenas a alguns. É a vocação de todo o povo de Deus. Cada batizado é chamado a ser presença de Cristo no mundo, levando esperança onde há desespero, levando misericórdia onde há feridas, levando luz onde há escuridão.

    O Santo Padre vai nos dizer que não é necessário haver formação ou conhecimentos, porém simplesmente se deixar preencher pela misericórdia e pelo amor do Senhor e testemunhar a todos essa alegria. E o conhecimento técnico surge como consequência desta alegria. E é isso que a Igreja propõe para cada um de nós: não somente se prender ao amor e ao perdão que recebemos, mas espalhar esse amor e este perdão.

A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados. Esta convicção transforma-se num apelo dirigido a cada cristão para que ninguém renuncie ao seu compromisso de evangelização, porque, se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe dêem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos missionários». Se não estivermos convencidos disto, olhemos para os primeiros discípulos, que logo depois de terem conhecido o olhar de Jesus, saíram proclamando cheios de alegria: «Encontrámos o Messias» (Jo 1, 41). A Samaritana, logo que terminou o seu diálogo com Jesus, tornou-se missionária, e muitos samaritanos acreditaram em Jesus «devido às palavras da mulher» (Jo 4, 39). Também São Paulo, depois do seu encontro com Jesus Cristo, «começou imediatamente a proclamar (…) que Jesus era o Filho de Deus» (Act 9, 20). Porque esperamos nós? (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 120.)

    Portanto, o que estamos esperando? Por que ainda não saímos gritando pelo mundo sobre essa misericórdia infinita que recebemos de um Deus ao qual, com muito carinho, podemos chamar de “papai”? É egoísmo de nossa parte receber este perdão que aprendemos com a “Parábola do Pai Misericordioso” e guardá-lo para nós mesmos. É um desperdício colocar um ponto final no perdão e não anunciar a alegria deste perdão. É necessário sermos firmes no chamado de Deus, não somente receber a misericórdia, mas anunciar a misericórdia.

    Por último, gostaria de lembrá-los de algo que eu havia dito quando rezei minha primeira missa como bispo nesta diocese. Falei um pouco sobre o meu lema episcopal “fazei isto em memória de mim”, e hoje volto a dizer: não se cansem de evangelizar e amar a Deus. Nossa missão só faz sentido quando fazemos memória de Cristo. Tudo aquilo que fazemos deve ser memória viva de Cristo. Afinal, Cristo vive. A história não acaba no Sacrifício da Cruz, mas continua e existe por causa da ressurreição.

    Cada celebração, cada gesto de caridade, cada palavra, cada esforço tem um único objetivo: tornar Cristo presente no meio do seu povo. Porque o nosso apostolado só encontra o seu verdadeiro sentido quando aponta para Ele e para o seu amor. Nós somos apenas servos de uma obra que é muito maior do que nós. Somos instrumentos de uma graça que não nos pertence. O ministério e o dom que exercemos não são uma propriedade, mas um dom recebido e uma missão confiada. E, novamente, é egoísmo de nossa parte não anunciar tudo isso ao mundo.

    E é justamente por isso que posso dizer hoje: a missão continua. Continua porque Cristo continua vivo no meio de sua Igreja. Continua porque o Espírito Santo continua guiando o povo de Deus. Continua porque o amor do Pai continua chamando seus filhos para voltar para casa. E que todos nós não nos cansemos de receber o perdão e receber este amor, e que possamos pedir a Deus essa graça de querer senti-lo e nunca cansar de recebê-lo. E não somente recebê-lo, mas anunciá-lo.

    Que cada um de nós possa permanecer fiel a esta missão. Que nunca percamos a esperança. E que tudo aquilo que fizermos em nossa vida cristã seja sempre isto: uma memória viva de Cristo no meio do mundo.

    Que Deus, que é rico em amor e misericórdia, continue nos acompanhando e nos iluminando nesta linda missão. Hoje, amanhã e sempre!

Dom Murilo Herrmann, OC-M
Arcebispo Eleito de Paraíba do Sul



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